Os seis anos de Abel Ferreira no comando do Palmeiras revelam um aspecto fascinante que vai além dos títulos conquistados. O treinador tem conseguido, temporada após temporada, reativar a capacidade de competição de sua equipe, desafiando a forma como avaliamos a qualidade do futebol jogado. O Palmeiras de Abel não busca ser um time que agrada a todos, e a estética do jogo parece ser a última preocupação do português.

Trabalhos longos como o de Abel permitem uma definição clara da identidade do treinador e de suas equipes. É importante ressaltar que não existe uma regra que determine que equipes mais cautelosas tenham um maior compromisso com os resultados. Todos os treinadores desejam vencer; o que os distingue é a abordagem escolhida. No fundo, trata-se de crenças sobre o futebol.

Um dos desafios impostos pelo Palmeiras é evitar julgá-lo apenas pelos resultados, desconsiderando a execução de seu plano de jogo. Abel Ferreira não precisa de cenários extremamente ameaçadores para optar por uma postura mais defensiva. Sua visão de futebol tende a priorizar a proteção em vez do ataque, o que é uma característica de seu estilo.

O trabalho de seis anos no clube comprova a competência de Abel em implementar sua filosofia. Ganhar uma partida jogando mal é uma possibilidade no futebol, mas chegar a quatro finais de Libertadores em sete edições possíveis e conquistar dois títulos brasileiros demonstra um desempenho notável.

Entretanto, existe um paradoxo a ser enfrentado: é possível reconhecer que o trabalho de Abel é excelente a longo prazo, mas também perceber que há jogos em que sua abordagem conservadora parece prejudicar a equipe. A semifinal contra o Fluminense, por exemplo, foi marcada por uma atuação abaixo das expectativas em três dos quatro tempos disputados, resultando em um desempenho que não refletiu a superioridade do Palmeiras.

Durante a partida, o Fluminense buscou manter o jogo aberto, enquanto o Palmeiras, apesar de ter mais posse de bola no primeiro tempo, não se arriscou. A formação defensiva isolou Flaco López, limitando as chances de contra-ataque. Com o passar do tempo, o Palmeiras se fechou ainda mais, enquanto o Fluminense avançava.

Essa situação gerou a sensação de que a equipe de Abel, ao seguir suas ideias conservadoras, diminuiu a diferença em relação ao adversário, levando a decisão para os pênaltis. O Fluminense, que já havia vencido o Palmeiras nesta temporada, tem seus méritos, mas não vive um bom momento, enfrentando desfalques e contando com jogadores em fase avançada da carreira.

Essa análise demonstra que o futebol não possui fórmulas definitivas. Tanto os times conservadores quanto os mais ofensivos podem enfrentar dificuldades. No entanto, a consistência a longo prazo é o que realmente importa, e Abel Ferreira tem argumentos sólidos para se afirmar como o maior técnico da história do Palmeiras, que já disputou oito finais de Libertadores, sendo quatro sob seu comando.

Com base em reportagem de Globo Esporte — ver original