Júnior Moraes, ex-jogador do Corinthians, relembra como liderou um grupo para escapar da guerra na Ucrânia. Poucos atletas passaram por experiências tão intensas quanto as vividas por ele, que incluem deixar o Brasil jovem, defender a seleção de outro país e enfrentar um conflito armado. Em entrevista ao ge, Júnior detalhou essas vivências, que estão registradas em seu novo livro, "A estratégia da mente blindada".
O ex-atacante, que defendeu o Corinthians, revelou que hesitou em se abrir para a imprensa após deixar a Ucrânia. "Eu achava que era uma guerra minha comigo mesmo, que tinha que lutar sozinho. Hoje, entendo que essa batalha não é só sua; é importante buscar ajuda e compartilhar suas experiências com profissionais adequados", comentou Júnior, referindo-se ao impacto do trauma.
Ele recorda que faz dois anos desde sua última partida, quando ainda estava no Corinthians, e relembra o dia 24 de fevereiro de 2022, quando teve que deixar a Ucrânia, onde jogava pelo Shakhtar Donetsk, em meio ao início dos ataques russos. "Acordei com meu fisioterapeuta me chamando, totalmente transtornado. Ele me mostrou um áudio informando que a guerra havia começado", relatou.
Com a situação caótica, Júnior se mobilizou para reunir jogadores e familiares, buscando mantimentos e um meio de deixar o país rapidamente. Ele formou um grupo de 40 brasileiros, incluindo idosos e crianças, para buscar segurança coletiva. Com acesso limitado à comunicação, o ex-jogador pediu apoio ao diretor do Shakhtar para encontrar um local seguro.
"Ficamos em um hotel que possuía uma sala no meio do prédio, que oferecia alguma proteção em caso de ataques. Embora não fosse um bunker, era melhor do que estar expostos", explicou, lembrando que permaneceram lá por cerca de quatro dias. Júnior também manteve contato com o governo brasileiro e com o presidente da Uefa, que buscavam formas de resgatar os atletas.
Após dias de tensão e uma viagem de trem que se prolongou devido aos ataques, o grupo conseguiu deixar a Ucrânia. Júnior expressou a dor da despedida em meio à guerra, ressaltando seu carinho pelo país onde viveu por quase uma década e se naturalizou. "A Ucrânia me ensinou muito", afirmou, emocionado ao lembrar dos filhos orando pela paz.
Ao retornar ao Brasil, Júnior foi recebido pelo Corinthians. No entanto, sua passagem pelo clube foi marcada por problemas de saúde, que incluíam alergias e dores. Ele disputou 21 jogos e marcou apenas um gol, lidando com um estresse que afetou seu desempenho. "Eu queria ter desfrutado mais dessa fase, pois a torcida do Corinthians é incrível", desabafou.
Após ser afastado e entrar na Justiça do Trabalho para rescindir seu contrato, Júnior fez um acordo com o clube. Ele explicou que, mesmo após viver momentos difíceis, sua mente ainda o pressionava, levando-o a entender a importância da saúde mental. Um ano depois, decidiu se aposentar para priorizar a família e novos desafios, incluindo a escrita de seu livro, com o objetivo de compartilhar aprendizados e incentivar o crescimento pessoal.
Com base em reportagem de Globo Esporte — ver original