Após a demissão de Dorival Júnior do Corinthians, Marcelo Paz fez um pronunciamento que reflete um padrão recorrente no futebol brasileiro. Sempre que um treinador é dispensado, ele se torna o foco das discussões, sendo avaliado como um réu em um julgamento: 'a demissão foi justa?', questionam torcedores e comentaristas. Essa situação se torna um tema predominante nas conversas, especialmente em momentos de insatisfação com os resultados.
Entretanto, ao analisarmos cada demissão isoladamente, encontramos argumentos que justificam a troca de comando, uma vez que, na maioria das vezes, a decisão é tomada em períodos de crise, com derrotas consecutivas e pressão da torcida. O caso de Dorival Júnior é emblemático: campeão da Copa do Brasil e da Supercopa, ele foi dispensado após nove partidas sem vitória, a última delas diante de torcedores descontentes.
É fácil colocar Dorival como o responsável pela crise, mas essa análise ignora o contexto mais amplo. Quando observamos que dez técnicos foram demitidos em apenas três meses, em um campeonato que mal começou, fica evidente que o problema não reside apenas nos treinadores. Essas demissões revelam uma incapacidade sistêmica de entender os processos de trabalho e os critérios para a escolha de um técnico.
É difícil acreditar que, em tão pouco tempo, dez clubes tenham chegado à conclusão de que suas escolhas para 2026 foram equivocadas. Mesmo diante de erros tão evidentes, raramente um dirigente é responsabilizado ou admite publicamente suas falhas, que podem afetar seriamente o futuro do departamento de futebol.
A frequência de demissões no Brasil não pode ser considerada uma característica cultural ou um aspecto folclórico do futebol. A estatística de dez trocas de técnicos em dez rodadas é alarmante e não deve ser motivo de orgulho. Esse cenário gera um efeito colateral: após algumas rodadas, os clubes que demitem frequentemente apresentam melhorias temporárias, levando muitos a acreditar que a decisão foi acertada. Contudo, a história mostra que essas variações são mínimas a longo prazo.
O sistema atual impede que se compreenda as ferramentas que um treinador possui para enfrentar crises, pois ele é demitido antes de ter a chance de mostrar seu trabalho. Assim, a figura do treinador se torna isolada, e, quando a demissão acontece, ele é o único a ser julgado, enquanto os dirigentes que fazem as contratações sem convicção e as gestões financeiras problemáticas permanecem fora do foco das críticas.
Quando observamos dez demissões em três meses, fica claro que o verdadeiro personagem central não é o treinador, mas sim aqueles que fazem as contratações e as demissões.
Com base em reportagem de Globo Esporte — ver original